Biografia

 

O nosso primeiro disco “De Não Ter Tempo” foi um trabalho de descoberta, de auto-conhecimento. Fomos confrontados pela nossa própria língua, algo que não acontecera anteriormente enquanto escritores de canções e, que de alguma forma, nos tornou mais sensíveis ao nosso país, ao nosso tempo e à forma como isso é traduzido para a nossa língua . Acho que abrimos uma espécie de caixa de pandora, nesse sentido, porque escrever em inglês, por exemplo, filtra muito do que os sentidos absorvem. Fica muita coisa de fora e muita coisa abstracta. Seria de esperar que fosse mais imediato escrever em português, mas as canções revelavam-se mais exigentes, mais caprichosas. Ao longo desse caminho fomos deixando essa nata de portugalidade vir ao de cima, a permitir que as alegorias e superstições se revelassem, e começaram a surgir símbolos e arquétipos enquanto (re)aprendíamos a olhar para a nossa história, para a nossa cultura e para nós próprios através dessa lente que afinal sempre tivemos no bolso. Não num sentido hermético, nem sob nenhuma bandeira, mas de uma forma orgânica de quem aprende a relacionar-se com o meio que o envolve e, que de alguma forma, lhe deu os códigos ao crescer.

Acabámos por criar um universo próprio que nos começou a guiar, e que acabou por nos trazer até “Pulso” o nosso segundo disco.
A partir daí deixámos que o método não fosse uma coisa estática, as canções foram surgindo das diferenças entre os dois, já que o que nos separava era também o nosso ponto de encontro. No fundo é um jogo de cartas entre dois velhos amigos, com a competição saudável que é própria de tal. Por vezes o Pedro surge com uma melodia, por vezes o João trauteia qualquer coisa, e depois é laboratório, é tempo de recolhimento, cada qual para o seu lado e criar intimidade com o tema. No fim é vê-lo dar os primeiros passos e retirar o excesso do processo.
Gostamos de pensar que Um Corpo Estranho é, mais que um projecto, uma entidade com vida própria, um pequeno Frankenstein que criámos com os cacos da vida de cada um de nós. E como tal, tem uma existência continua, paralela à nossa.
No fundo, quando temos de parar, porque também há a outra vida, onde existe trabalho, filhos, família, responsabilidade, enfim o reboliço eterno da moderna existência, Um Corpo Estranho não pára, fica ali a reunir mais cacos, a peneirar o que lhe interessa das nossas vidas.
Este segundo disco começou com a morte do primeiro, sem interrupção, como um folhear entre capítulos. Tivémos ano e meio para compreender o que tinhamos em mãos… Agora é libertar.
Criar a dois é mais fácil que criar individualmente, havendo química e convergência o bastante para traçar uma meta comum. Mas mesmo este monólogo bicéfalo tem quebras e bloqueia constantemente. Esse é talvez o momento em que os temas nos começam a soar, quando os entregamos, com toda a convicção e segurança, nas mãos dos músicos que nos rodeiam. A sensibilidade deles é fundamental para o projecto, para além da amizade que já cultivamos há bastantes anos, antes até de qualquer um de nós pensar em ser músico. Um Corpo Estranho também é isso, essa permeabilidade, esse contagio e essa abertura ao input das pessoas que nos rodeiam.
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