Homem Delírio (2019)

01 FIO A PAR DO MAL

Letra e Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

Preso no todo que vai para lá…

Tanto de mim que ficou para trás. 

Por um fio…

Preso num fio a par do mal que o faz soltar.

 

Preso por conta de andar por aí…

Tanto que eu quis acabar por ficar

Por um fio…

Preso num fio a par do mal que o faz soltar. 

 

02 SANGUE IRMÃO

Letra e Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

 

Movido pelo tumulto, bradei à terra trovões,

Investi contra os demais, faltou-me rédea e travões.    

Coberto, a sós, em frio abrigo, protelando essa vastidão 

De mundo que clama ao meu ouvido: liberdade pelo sangue, irmão!

 

Só para ficar para sempre, fiz-me existir remoto,

Dobrando as terras sofridas, travando as guerras dos outros.

Só por engano, o inimigo quis provar desse pão

Roubado à fome e embebido no amargo do sangue irmão.

 

Vem da cegueira, vem de uma miragem,

Os sinos dobram por quem está de passagem.

No fim, quem os fez dobrar?

 

03 HOMEM DELÍRIO

Letra e Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

 

Homem-delírio sulca o detalhe

No qual o mundo limita o sonho,

E vem por fim semear outra ilusão.

 

Na aurora mansa, confirmo ter o teu coração de astro louco,

E teimo, por meu o pulsar da vida que corre em ti.

 

Sofro a derrota de ombros caídos,

Um quarto de lua clara sobre a cabeça,

E tanto mais sob as estrelas.

 

Na mão do servo curvado, 

O labor cativo ordenha o leite à terra mãe,

E a boca tenra do filho prova o milagre em paz.

 

04 O ESTRANGEIRO

Letra e Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

 

Ninguém sabe de onde vem para lá do rumor,

Escapou de luta ou de lei, exilado ou desertor?

 

Presta, o estrangeiro, o seu respeito.

Terra de paz descansa o peito.

 

Olha, a pesar a distância. Arde no cerne a memória.

Pelo murmúrio do vento, findou-se parte da estória.

 

Presta, o estrangeiro, o seu respeito.

Terra de paz descansa o peito.

 

Gente sofrida sabe honrar as estórias que custam a contar.

 

05 ESCOMBROS

Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

Instrumental

 

06 HERA 

Letra e Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

 

Distante, extremo, sem fim,

O céu tão longe daqui…

 

Prossegue, o cortejo de gala, rogando por um bem maior,

Nem um murmúrio relembra a tua voz, o silêncio é por nós.

 

Do abismo do ser,

Do que não tem lugar,

É preciso perder,

Abrir mão, libertar!

 

E rompe o acorde que o louvor final sustenta,

Escondido, o coração, defeso em dor.

 

A lembrança é uma hera 

Que se abraça à primavera 

E adormece na quimera,

Para além da noite.

 

A terra ressoa

A ária do mar, o verso ancestral,

A primeira trova,

A palavra mãe, o hino que ressoa…

 

(A lembrança é uma hera que se abraça à primavera)

Contem-se as pedras erguidas entre as ruinas.

 

07 TERRA PROIBIDA

Letra e Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

 

Quando a horda se afastar,

O chão pode florir de novo

Entre os destroços da manhã

Na velha Canaã.

 

Sendo que o mesmo mundo

Esconde o paraíso,

O que é da vida na terra prometida?

 

No mesmo chão dorme a manada, 

Alheia à escritura sagrada.

O mesmo deus nutre o rebanho,

Alheio ao seu tamanho.

 

Estrangeiro ao mesmo mundo,

Está o paraíso,

Vencido e moribundo,   

Roga o paraíso,

Por outra vida na terra proibida.

 

08 VALSA DO ACASO

Letra e Música: João Miguel Mota & Pedro Franco

 

Tinha tanto mais para dizer,

Que me calei no fim sem te contar o que passei.

Todas as palavras por escrever

Prometem mais que o livro que acabei.

 

Fiquei mudo à espera que o acaso 

Te dissesse o que eu pensei.

 

Eu tinha segredos para contar,

Para partilhar contigo e que acabei por me esquecer.

Tenho-me deixado enganar

Pela vida e pelas mentiras que me andam a dizer.

 

Fiquei mudo à espera que o acaso

Te levasse a entender.

 

Tudo o que eu queria era abrir-te o coração,

Revelar-te tudo o que cobri na solidão,

Emergir da água toda a minha confusão,

Mas fiquei mudo à espera que o acaso

Te poupasse a omissão.

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