De Não Ter Tempo LP (2014)

Império dos Corvos
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

A chama morreu ou fui eu que gelei?
Há um tanto de coisas que eu não sei.
A luz que brilhava extinguiu-se
E quem a seguia perdeu-se.

Derramou-se o vinho no chão
Ninguém aprendeu a lição.
Içou-se a bandeira e o vento cessou
E já nem o galo cantou

Os corvos disputam
Pelo escasso que brilha
Os lobos devoram
A própria matilha

E a quem nos cabia guiar
Desertou para outro lugar.

Resto Zero
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

Já choveu,
Já houve tanto que passou,
Que o mundo também se cansou
E tudo o que era bom desapareceu.
Já partiu,
E o que era de ontem terminou
E tudo aquilo que sobrou
Não chega a atenuar o meu fastio.

Já é tarde
Para chorar o que se perdeu
E se até o herói cedeu
Ao ardil do cobarde…

E para mais,
Perdi o fio à equação
Tornei-me na subtração
Da soma de tantos totais.

Já choveu,
Já houve tanto que passou
E tudo aquilo que sobrou
Já nem chega a ser meu,
Já nem chego a ser eu.

Auto Coação
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

A lutar por defeito,
A caminhar às cegas,
De punhos fechados,
A combater fantasmas.
De dentes cerrados,
Amordaçava a mente,
E olhava o abismo
A calcular a queda.

Eu tinha o peito feito,
Num erro perfeito.
Eu tinha o peito feito a treva

Vi que no tempo em que estive em paz com a solidão,
Estive enganado sob a minha auto coação.

A noite afogada
No canto de um balcão,
Onde eu destilava
O meu coração.
Invocava infinitos,
A bem de me esquecer
A remota morada
Onde te quis perder.

Eu dormia no fundo
Do ventre do mundo,
Dormia no fundo
De um sono profundo.
E Rugia do fundo
Da boca do mundo,
Rugia de fundo..
(A tua voz a combater para não morrer).

Amor Em Contramão
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

Dizes que a vida te foge, que tens medo
Que um dia te arrependas de voltar atrás
Eu finjo dar importância ao teu lamento
E uso falsos argumentos para que não te vás.

Toda gente te avisou de que eu não presto,
Que me viram por aí com outras mulheres,
Que eu tenho má bebida que não sou honesto,
Mas quanto mais eu saio da linha mais tu me queres

Andamos já há tanto tempo em contramão
No engano de contrariar a solidão,
Mas ninguém pode ser feliz, como se diz,
Numa prisão.

Ambos entrámos neste jogo para perder,
Nunca existiram trunfos nem batota,
Mas não viemos dar à praia para morrer
E quem sempre correu por gosto não se esgota

E se um dia todas as portas se fecharem,
Havemos de encontrar uma janela,
Para nos rir-mos do mundo através dela.

Telhados de Vidro
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

Quando a noite desceu
E a luz se extinguiu,
O corpo que no fogo adormeceu
Acordou no frio.
Na boca branda agora um punhal feroz
A romper o que resta de nós.

Ao lançar da primeira pedra,
Qual de nós foi atingido?
Quem se esqueceu que o seu telhado
Era de vidro?
O coração é um vilão traiçoeiro,
Como um lobo na pele do cordeiro.

Sob um fogo cruzado destruímos o paraíso
Dançam demónios no lugar que eu vi habitar o teu sorriso
Hoje somos os escombros de um lugar que não resistiu
E o pilar que sobrava ruiu.

Quem, porém, desertou?
Quem tem andado a monte?
E, de tanta sede, acabou
Por secar a fonte?
Foi no teu leito que o meu sonho caiu.
E expirou no teu peito vazio

No Fim Tudo Está Bem
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

Eu não sei quem foi
Que sonhou com um tempo melhor ,
Que lutou por ter uma voz
Que há muito se calou.
Fui tolo em pensar
Que existia um desejo em mudar,
Que ainda havia pernas para andar
Num mundo de pernas para o ar.

E no fim, tudo está bem
Assim se possa contar.
Que ao menos sirva a alguém
Quando tudo acabar.

No ventre de deus
Já não há lugar para os seus,
Já não há divino nem pagão
A colorir os céus.
Resta-nos sorrir
Ao inferno está para vir.
Se o diabo teima em existir aqui,
Seja assim.

E no fim, tudo está bem
Assim se possa contar.
Que ao menos sirva a alguém
Quando tudo acabar.
E no fim, tudo está bem
Assim se possa contar…
Haja quem possa contar.

Matéria de Combustão
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

O corpo ferve e falha-me a razão,
O teu peito borboleta a latejar na minha mão .
Não é do frio, é um arrepio a calibrar
O ritmo alucinado da pressão ventricular
Palavras leva-as o vento
E o vento nasce dentro de mim.

Não me peças para falar,
Que a boca sabe o que carece de atenção.
Não tenho nada para te dar
Mais que a matéria necessária à combustão.

Eu finjo entrar nesse teu lar de solidão
Se tu me prometeres que vais fingir nunca ficar
Que eu sou do vício, um artifício ao coração
E um coração assim não tem lugar.

Não Tenho Tempo Para Esperar Por Mim
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

“Espera, que o dia há de chegar”
E eu desespero por esperar,
Por não saber o que me espera.

Traço o meu rumo à direcção
Que me obrigar a inquietação,
Assim o coração prospera.

E prendo-me, à luz do que me é anterior,
Nada me diz que o amanhã será melhor.
E a tudo o que é breve eu digo que sim,
Não tenho tempo para esperar por mim.

Corpo Estranho
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

“Tens a vida á tua frente”
Disse-te por seres criança
E eu andei cego e dormente,
Vivia a perder a esperança.

Esperei tirar tudo a limpo
Desfiar o meu engano
Ao viver dessa miragem
Não me tornei mais humano.

Encobri-me de silêncio
E o meu canto ensurdeceu
Tornei-me num corpo estranho
Que alguém diz que fui eu (morreu).

Vem – Além de Toda a Solidão
(Compositor: Letra De Pedro Ayres Magalhães – Música De Pedro Ayres Magalhães/Rodrigo Leão/Gabriel Gomes)

Vem,
Além de toda a solidão,
Perdi a luz do teu viver,
Perdi o Horizonte.
Está bem,
Prossegue lá até quereres,
Mas vem depois iluminar
Um coração que sofre.

Pertenço-te até ao fim do mar.
Sou como tu, da mesma luz
Do mesmo amar.
Por isso vem porque te quero consolar.
Se não, está bem,
Deixa-te andar a navegar.

Água de Fazer Esquecer
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

Agarra a minha mão que eu pouco mais tenho a dizer
E enche a minha taça que hoje bebo por prazer.
Inebria -te tu também,
Hoje não estamos para ninguém
E ébrio o coração pode deitar tudo a perder.

Não consideres, bem ou mal,
O desejo é acidental.
O corpo nunca mente nem se prende na moral.

Baixa a tua guarda e mata a tua apreensão,
Porque amanhã voltamos a ser escravos da razão.

Não me tomes pelo vilão,
Não sou pior que a solidão
E a noite não protege quem se rege pela razão

Molha os lábios nesta água de fazer esquecer
Porque amanhã é tempo do mundo nos corromper…
Porque amanhã há tempo para o mundo nos corromper.

Valquíria
(Letra e Música: João Mota e Pedro Franco)

Na tua boca mil demónios bramam
Laminas cegas e sentenças.
Falta-nos luz para ver o quadro inteiro,
Falta furar o nevoeiro.
Ver o teu ar de valquíria desarmada
Na escassez de um inimigo.
O meu inverno acabou contigo
Quebrou a tua espada.

Sobrou vinho azedo nos teus lábios
E eu dei-te de beber sem restrição
Até que te perdeste do meu rasto
E eu fiquei tão fora de mão.
A noite teceu-te um vestido de apatia
Que o meu peito repudia
E ver o teu ar de valquíria desarmada
Chegar ao fim da estrada,
Chegaste ao fim da estrada.

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